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Uma noite com Villa e Guinga

Noite de sábado chuvoso no Rio de Janeiro. O mar estava revolto e uma leve bruma batia no rosto de quem passava pelo aterro do Flamengo em direção ao bairro de Botafogo. No meu caderno havia escrito: Rua Sorocaba, n° 200. O endereço me levava ao Museu Villa-Lobos, um casarão antigo dos muitos que se encontram ainda pelo Rio. Idealizado por Arminda Neves D’Almeida, a segunda esposa do maestro, o espaço celebrava naquela noite o “Festival 50 anos do Museu Villa-Lobos”, com show do violão carioca de Guinga.

Antes do início do espetáculo, o genial violonista Turíbio dos Santos subiu ao palco, e como diretor do museu e mestre de cerimônias teceu as apresentações do maestro que marcou em definitivo a história da música brasileira: ”O show desta noite é especial, isto porque a arte de Guinga vem da mesma escola que a de Villa-Lobos; ambos compõem a partir da rua, dos bairros, dos botequins. Villa-Lobos foi tudo menos acadêmico. Ele percorreu o Brasil, seus rios, povos, línguas, raízes, sua boemia. Foi um homem que transformou tudo que viveu em música”.

As palavras de Turíbio ecoaram longe, trazendo à memória as imagens de artistas como Cartola, Noel, Nelson e tantos outros que buscaram na rua, na dura vida diária o elemento para a poesia, para a música que precisava nascer. Cada um a seu modo estava ali ao lado de Villa-Lobos, bebendo o mesmo trago de cachaça e cantando a beleza, o amor e a solidão.

Logo veio Guinga dedilhando “Senhorinha”, parceria com Paulo César Pinheiro; poesia delicada oferecida ao público.

Senhorinha
Moça de fazenda antiga, prenda minha
Gosta de passear de chapéu, sombrinha
Como quem fugiu de uma modinha

Será que eu vou subir no altar
Será que irei nos braços dela
Será que vai ser essa donzela
A musa desse trovador

De repente, o violonista emendou “Garota de Ipanema” e todos cantaram em uníssono como que querendo agarrar a esperança daquele amor renovado, símbolo da canção de Tom e Vinicius. Do meu lado, uma mulher começou a chorar fundo. Por que chorava naquele momento de prazer e música – pensei. Talvez perdera o marido ou o filho num acidente trágico ou de doença? Talvez fosse a lembrança do amor de juventude que não aconteceu? Ou a distância, ou o frio ou solidão da casa? Quem sabe o emprego perdido, o projeto não concluído, ou a sensação de que tudo passou? Eu não sabia responder, mas sentia que o choro daquela mulher no Museu Villa-Lobos era também meu choro, lágrimas de saber que cada um tenta dar o melhor nesta vida, que todos buscam esta felicidade prometida mas não alcançada. Diante do meu choro, Guinga ofereceu Pixinguinha e “Carinhoso”, e tudo se reestabeleceu.

A arte como sempre renova a esperança, e dá fôlego à sensibilidade humana, essa que faz nascer Villas, Noéis, Cartolas e Guingas.

“E os meus olhos ficam sorrindo / E pela rua, vão te seguindo / Mas mesmo assim / Foges de mim…”

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