GERMANA E OS TROPEIROS DE MINAS

Os dez filhos de Sérgio Caetano cresceram vendo o pai montar em lombo de burro e partir, junto com uma pequena tropa carregada de rapadura, fubá e cachaça, da fazenda da Várzea, em Nova União, rumo à Mina dos Ingleses, num percurso de cerca de 60 quilômetros. Na década de 1940, o patriarca dos Caetano era tropeiro dos bons e ficou conhecido por inventar uma embalagem diferente para a cachaça que vendia. Ele enrolava as garrafas em palhas de bananeira para protegê-las dos raios do sol e de prováveis acidentes.

A cachaça era uma tradição de tempos antigos, quando dona Maria Lúcia Caetano fundou a fazenda da Várzea, aos pés da pedra da Baleia, na divisa de Nova União com Bom Jesus do Amparo, em Minas Gerais, nos idos de 1912. Foi ela quem ensinou ao filho Sérgio os segredos da “alambicagem”. “O meu pai era um sábio. Lembro que ele falou uma vez assim: ‘Olha, tem duas receitas de cachaça – a boa e a ruim. A boa todo ano você arruma mais um cliente; a ruim a cada ano você perde dois. Você escolhe a cachaça que quer fazer!”, explicou o filho Walter Caetano.

E os dez filhos de seu Sérgio escolheram, ou melhor, aprenderam a lição. Eles resolveram na década de 1980 retomar a produção da cachaça artesanal nas terras da fazenda da Várzea, que tinha sido interrompida há mais de 20 anos. Com eles nasceu a marca que se tornou sinônimo de qualidade – a Germana.

ONDE A HISTÓRIA COMEÇOU

Rezam as lendas que a Germana nasceu da ousadia dos Caetano – é a tal palha de bananeira usada para proteger as garrafas; ou o luxo de ter sido a primeira cachaça a ser servida em voos aéreos pela antiga Varig, no final da década de 1990; ou o pioneirismo de ser exportada para a Inglaterra e também África do Sul, abrindo portas para as outras marcas.

Para começar, o sucesso da cachaça Germana está presente na relação harmoniosa do engenho com a natureza. A fazenda possui uma reserva ambiental de aproximadamente 100 hectares e mais de 20 nascentes perenes protegidas. Walter Caetano conta que há um cuidado extremo com o reaproveitamento do vinhoto e do bagaço. E quem visita a fazenda pode ver ainda que nas montanhas circundantes, onde a família faz o cultivo da cana com tração animal para evitar a erosão, o cume é preservado com vegetação natural.

Todo dia 21 de maio, Dia da Cachaça Mineira (decreto de 2001 do então governador do Estado Itamar Franco), a família Caetano bota o engenho para funcionar e inicia uma nova safra – são as dornas de fermentação, a moenda em estilo antigo e o alambique “capelo” que destila aquela cachaça pura, do sabor de Minas. E se não bastasse a casa principal da fazenda ser coberta por trepadeiras, a adega lembra uma boa casa de uísque escocês. São mais de 600 barris de carvalho inglês, alojados em estruturas de madeira num grande cômodo, com níveis de iluminação, umidade e temperatura controlados.

Tudo isso fez da Germana da Família Caetano, de Nova União, uma das melhores de Minas.

Uma freira chamada Germana


Na região entre os municípios de Nova União e Caeté há um registro antigo da palavra “germana” para designar algo sem mistura, puro e genuíno.  Alguns estudiosos afirmam que a palavra sofreu influência de um fenômeno cultural-religioso ocorrido no princípio do século XIX, quando uma freira chamada Germana, que vivia próxima a um famoso santuário (Igreja de Nossa Senhora da Piedade), foi acometida por transes e revelações de natureza mística, atraindo milhares de pessoas em romarias devido aos remédios preparados por ela com cachaça e ervas.

A Família Caetano ao iniciar a produção de cachaça resolveu homenagear o costume da região e a tradição religiosa, registrando a bebida com o nome da mística Germana, personagem marcante no imaginário popular e que consolidou o santuário de Nossa Senhora da Piedade como local de peregrinação até os dias de hoje.

 

 

 

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