Arquivo do mês: fevereiro 2011

Livro “Cachaças – Minas Gerais”

LIVRO CACHAÇAS - MINAS GERAIS

No começo de 2010 recebi uma proposta irrecusável, participar da produção de um livro para o Sebrae-MG sobre um dos produtos símbolo da cultura mineira e também nacional. O tema era a cachaça, a abrideira, a caninha… O projeto coordenado pelo jornalista Adriano Macedo tinha como objetivo contar a história da cachaça, da sua origem nas capitanias de São Vicente e Pernambuco, passando pela sua chegada em Minas no final do século XVII com a descoberta do ouro, até a construção da cultura da cachaça artesanal em terras mineiras, dos alambiques e da descoberta do coração do destilado, do humor e imaginário popular (marcas com Sedutora, Florisbella e outras) até a modernização e exportação da marvada como bebida brasileira.

Foram três meses de trabalho; da equipe participaram além de Adriano Macedo, o jornalista e escritor Jorge Fernando dos Santos, os fotógrafos Ignácio Costa e Miguel Aun e o jornalista que vos fala e escreve. Nos separamos e Jorge foi para o Norte rumo à Januária e Salinas, coletar estórias e sabores. Eu fiz o Sul de Minas, conheci Boa Esperança, Poço Fundo (Colinas do Sul), Piranguinho (Dedo de Prosa) e o entorno de Belo Horizonte, nas fazendas das cachaças Germana (Nova União), Vale Verde (Betim), Prosa & Viola (Morro da Garça) e tantas outras. Na lembrança o cheiro forte de cana das adegas mineiras, com os barris de carvalho, umburana, jequitibá… Na lembrança, o sorriso dos produtores de Gil Moura e sua cachaça Da Boa, de Seu Vinicius Augusto da Silva, que foi tropeiro dos bons nos idos de 1950 e comercializava a sua Granfina a preço de ouro em Montes Claros e região.

O livro “Cachaças – Minas Gerais” foi lançado em dezembro de 2010 pelo Sebrae-MG e distribuído aos parceiros. No seu corpo de coloração dourada e bouquet aromático são apresentadas cerca de 60 marcas de cachaças produzidas em Minas Gerais. Um universo bem pequeno perto das mais de 600 marcas registradas no Estado, produzidas em 9 mil alambiques espalhadas de Norte a Sul, de Oeste a Leste nas terras de Guimarães e Drummond. Minas Gerais produz anualmente 260 milhões de litros por ano de cachaça artesanal, o que representa mais da metade nacional.

A boa notícia é que o livro está disponível na internet (formato pdf) no site do Sebrae-MG. Os leitores interessados podem se cadastrar no Portal e fazer o download da publicação.

 


Para mim, que participei do projeto, que vi cada linha e cada estória nascer, o sentimento é de um filho posto no mundo, bonito, viçoso, com cor e cheiro de cana. Os causos de tropeiros são muitos, os rótulos, os nomes, o coração da marvada encanta a gente, tem abrideira famosa e algumas mais discretas, tem as calorosas e aquelas que são como colo de mãe. Tem pra todo gosto e bolso… Enfim, aos amigos, um presente meu, uma cachaça de Minas.

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Engenho Boa Vista: o alambique mais antigo do Brasil

Os historiadores não sabem precisar a data, nem confirmam o causo de que o Engenho Boa Vista é o mais antigo do Brasil em funcionamento. Porém, os apreciadores de uma boa branquinha juram de pé junto que o engenho localizado na Estrada Real, em Coronel Xavier Chaves (MG), a 14 km de São João Del-Rei, produz uma das melhores cachaças do País.

Engenho Boa Vista (MG)

Propriedade de Rubens Resende Chaves (bisneto de Xavier Chaves e descendente direto dos pais de Tiradentes) e da esposa Cida Chaves, o Engenho Boa Vista foi erguido no século XVIII. E é no seu alambique antigo que o casal produz boas alambicadas da cachaça “Século XVIII”… Uai, uma homenagem aos tempos das Minas Gerais revolucionária, de tropeiros, mulas e estórias.

E por falar em estórias, todas as tardes de sábado, Rubens Chaves abre o engenho para visitação, das 10h às 13h, e o moço que se aventurar por lá pode degustar uma boa caninha acompanhada de petisco. O proprietário também faz melado, rapadura e licor de cachaça.

Imagem noturna de Coronel Xavier Chaves (MG)

GERMANA E OS TROPEIROS DE MINAS

Os dez filhos de Sérgio Caetano cresceram vendo o pai montar em lombo de burro e partir, junto com uma pequena tropa carregada de rapadura, fubá e cachaça, da fazenda da Várzea, em Nova União, rumo à Mina dos Ingleses, num percurso de cerca de 60 quilômetros. Na década de 1940, o patriarca dos Caetano era tropeiro dos bons e ficou conhecido por inventar uma embalagem diferente para a cachaça que vendia. Ele enrolava as garrafas em palhas de bananeira para protegê-las dos raios do sol e de prováveis acidentes.

A cachaça era uma tradição de tempos antigos, quando dona Maria Lúcia Caetano fundou a fazenda da Várzea, aos pés da pedra da Baleia, na divisa de Nova União com Bom Jesus do Amparo, em Minas Gerais, nos idos de 1912. Foi ela quem ensinou ao filho Sérgio os segredos da “alambicagem”. “O meu pai era um sábio. Lembro que ele falou uma vez assim: ‘Olha, tem duas receitas de cachaça – a boa e a ruim. A boa todo ano você arruma mais um cliente; a ruim a cada ano você perde dois. Você escolhe a cachaça que quer fazer!”, explicou o filho Walter Caetano.

E os dez filhos de seu Sérgio escolheram, ou melhor, aprenderam a lição. Eles resolveram na década de 1980 retomar a produção da cachaça artesanal nas terras da fazenda da Várzea, que tinha sido interrompida há mais de 20 anos. Com eles nasceu a marca que se tornou sinônimo de qualidade – a Germana.

ONDE A HISTÓRIA COMEÇOU

Rezam as lendas que a Germana nasceu da ousadia dos Caetano – é a tal palha de bananeira usada para proteger as garrafas; ou o luxo de ter sido a primeira cachaça a ser servida em voos aéreos pela antiga Varig, no final da década de 1990; ou o pioneirismo de ser exportada para a Inglaterra e também África do Sul, abrindo portas para as outras marcas.

Para começar, o sucesso da cachaça Germana está presente na relação harmoniosa do engenho com a natureza. A fazenda possui uma reserva ambiental de aproximadamente 100 hectares e mais de 20 nascentes perenes protegidas. Walter Caetano conta que há um cuidado extremo com o reaproveitamento do vinhoto e do bagaço. E quem visita a fazenda pode ver ainda que nas montanhas circundantes, onde a família faz o cultivo da cana com tração animal para evitar a erosão, o cume é preservado com vegetação natural.

Todo dia 21 de maio, Dia da Cachaça Mineira (decreto de 2001 do então governador do Estado Itamar Franco), a família Caetano bota o engenho para funcionar e inicia uma nova safra – são as dornas de fermentação, a moenda em estilo antigo e o alambique “capelo” que destila aquela cachaça pura, do sabor de Minas. E se não bastasse a casa principal da fazenda ser coberta por trepadeiras, a adega lembra uma boa casa de uísque escocês. São mais de 600 barris de carvalho inglês, alojados em estruturas de madeira num grande cômodo, com níveis de iluminação, umidade e temperatura controlados.

Tudo isso fez da Germana da Família Caetano, de Nova União, uma das melhores de Minas.

Uma freira chamada Germana


Na região entre os municípios de Nova União e Caeté há um registro antigo da palavra “germana” para designar algo sem mistura, puro e genuíno.  Alguns estudiosos afirmam que a palavra sofreu influência de um fenômeno cultural-religioso ocorrido no princípio do século XIX, quando uma freira chamada Germana, que vivia próxima a um famoso santuário (Igreja de Nossa Senhora da Piedade), foi acometida por transes e revelações de natureza mística, atraindo milhares de pessoas em romarias devido aos remédios preparados por ela com cachaça e ervas.

A Família Caetano ao iniciar a produção de cachaça resolveu homenagear o costume da região e a tradição religiosa, registrando a bebida com o nome da mística Germana, personagem marcante no imaginário popular e que consolidou o santuário de Nossa Senhora da Piedade como local de peregrinação até os dias de hoje.

 

 

 

Millôr Fernandes quando crescer vai ser jornalista


Fiquem tranquilas as autoridades.
No Brasil jamais haverá epidemia de cólera.
Nosso povo morre é de passividade

A charge está disponível no site do jornalista Millôr Fernandes, um dos maiores do Brasil (sendo que tal afirmação deve parecer um disparate para esse escritor que sempre recusou denominações).

Veja em Millôr Fernandes

ENSINAMENTOS DE GIAN CALVI

“O inconformismo é a primeira obrigação do homem criativo”.

Gian Calvi

Cachaça de A a Z

Abençoada, bagaceira, calibrina, endiabrada, malafo ou obsessão… A cachaça, desde as suas origens no Brasil Colônia, ganhou uma infinidade de apelidos. Em cada região do país, ou em diferentes grupos sociais, o destilado de cana que melhor representa a alma brasileira pode ser identificado por meio de expressões solenes ou bem-humoradas, que já fazem parte do folclore nacional. De A a Z, a grande variedade de nomes da bebida revela a criatividade dos bons bebedores.

O blog Prosa com Cultura para celebrar a retomada do seu Glossário da Cachaça, lista algumas denominações distintas dessa bebida que faz parte da história do País e do brasileiro.

A

Abençoada, abrideira, acalma-nervo, amansa-corno, ardosa, arrebenta-peito.

B

Badalo, bafo de tigre, bagaço, bambu-amigo, bebida de pobre, bicha, birita, boa, boa ideia, boinha, braba, branca, brasa, brava.

C

Cabreira, cachorro de engenheiro, café branco, caiana, calibrina, canha, canica, capim-santo, cascavel, catuta, cauim, chica-boa, consolação.

D

Danada, de colarzinho, dengosa.

E

Esgasga-gato, engorda-marido, esquenta por dentro.

F

Faísca, faz-dodó, fecha-corpo, fogo, fogosa.

G

Garapa, girgolina, giribita, gororoba

H

Homeopatia.

Iaiá me sacode, imaculada, imbiriba.

J

Januária, jeritiba, jura.