Arquivo do mês: janeiro 2011

A tradição dos blocos do Rio

Camiseta do Barbas 2010. Divulgação

O verão chegou e em terras de São Sebastião do Rio de Janeiro começa o maior espetáculo da terra… Dizem alguns que é ali na Sapucaí que Deus tira uma folga (no domingo de carnaval) para escutar a bateria de Portela, ver as passistas do Salgueiro e a velha guarda do Império desfilar. Para outros, é no entorno da passarela do samba – Lapa, Estácio, Centro e Cidade Nova, como também em outras adjacências – Zona Sul e Norte – que começa o carnaval mais popular do País, democrático sem cordas e pipocas, repleto de alegria e música. São os blocos que neste mês de janeiro já começam os ensaios. O Rio oferece um cardápio para todos os gostos, seja o Suvaco de Cristo ou o Bloco de Segunda; como também o irreverente Meu bem volto já e a tradição dos Escravos da Mauá… Nas ruas tem humor, descontração e um espírito libertário que faz do carnaval essa festa eterna.

A origem dos blocos

No livro “Blocos”, do jornalista e pesquisador musical João Pimentel, o autor conta que o carnaval de rua do Rio de Janeiro teve sua origem nos chamados entrudos, festa de origem portuguesa chamada “Adeus à carne”. No Brasil, essa forma de brincar – que consistia num folguedo alegre, mas violento – já pôde ser notada em meados do século XVI. A brincadeira era mais ou menos assim: “os escravos esquentavam a cera para fazer os recipientes, preenchidos pelos filhos de senhores com todos os tipos de líquidos. Jovens, velhos, senhores, escravos esperavam algum desavisado passar pela rua e, em bando, cercavam o sujeito, jogando na cara dele desde farinha a ovos e até urina. É claro que a brincadeira, na maioria das vezes, não acabava bem”.

A brincadeira do entrudo

Apenas no século XX, na gestão do prefeito Pereira Passos (aquele responsável pela dita “modernização” do Rio, com a retirada dos cortiços e da classe pobre do centro da cidade) que o entrudo desapareceu. À época, outras manifestações populares já tomavam conta das ruas, como os ranchos, os cordões e os blocos.

Os ranchos surgiram das mãos de Hilário Jovino Ferreira, um tenente envolvido com as manifestações da cultura negra. Segundo o jornalista João Pimentel, foi Jovino quem ajudou a criar os ranchos Reis de Ouros, Ameno Resedá e Reino das Magnólias, como também dar à tradição das festas de reis da Bahia um caráter diferente que iria influenciar nas escolas de samba do Rio.

Essa manifestação contava com instrumentos musicais de cordas, como o violão e o cavaquinho, e de sopro, como flautas e clarinetas. Já os blocos e cordões imprimiram ao carnaval o seu jeito popular, embalados por instrumentos de percussão, cantavam músicas próprias, carregavam um estandarte e eram comandados por um mestre e seu apito.

Os ranchos e cordões praticamente desapareceram da cultura de rua do Rio de Janeiro. Parte de seus elementos foram incorporados aos blocos, que hoje representam a diversidade e riqueza do carnaval mais popular do País.

A seguir, o vídeo do Cordão do Boitatá, com seus sopros, sua cadência e canções – das marchinhas às músicas juninas e pastoris.


A borboleta e o mar

por Breno Procópio

– Clarice, entra! Já coloquei o café e o bolo na mesa.

A mãe estava preocupada, era inverno em Itabira e naquela época ao passar das seis o vento chegava frio e silencioso. A menina fora brincar no jardim, como todos os dias, e esquecera-se de tudo. Na parte alta do terreno, quase uma sebe de floresta, Clarice via uma borboleta azul percorrendo um rio de margaridas brancas, um ser azul que fazia rodopios no ar e, de repente, descia para pousar qual uma pluma sobre o botão amarelo. O vento batia mais uma vez e a borboleta era enredada, levada pelo sopro austral para longe da sua casa de margaridas. Clarice saía em disparada, perscrutava com os olhos na busca da mancha azul. No canteiro de ervas, a borboleta já estava ali pousada entre alecrins, tomilhos, alfazemas, comigo-ninguém-pode, capim-cidreira, espinafre, açafrão e outras especiarias que dona Judite cultivava com a ajuda da avó Mena. “Tempos outros de bruxaria, de caldeiras e feitiços”, era o que a avó dizia ao contar as estórias da família. A menina, impressionada, formulava causos em que era uma bruxa esperta, capaz de transformar sapo em salamandra.

– Por que não transforma o bicho em príncipe? É muito melhor, dizia a avó.
– Mas eu não quero um príncipe, vó, quero a salamandra vermelha pra ser minha amiga!

Os olhos graúdos castanhos, o cabelo liso e a pele branca de nuvem davam à Clarice um ar de boneca. Embora já com 12 anos completos, a menina tinha dificuldade de fazer amigos. Preferia o silêncio do jardim, o mundo fantástico do próprio quarto ou a cozinha com seu cheiro de bolo, café moído na hora, broa, pão de queijo, galinha assada, cravo e gordura. Mas o lugar favorito mesmo era uma velha jabuticabeira, ainda de pé, viçosa, no centro do quintal. “Pra mim jabuticaba é o melhor fruto do mundo. Por fora é negro como a noite, mas dentro a gente encontra uma poupa fina, bem branquinha com gosto de algodão doce”, explicava com entendimento.

Quando a mãe Judite perguntava à filha por que não fazia amigos, ela respondia que já possuía tudo que precisava. “Falta só conhecer o mar, para poder morrer”, dizia séria e citava os versos que escutava sempre da boca do pai João Pedro. “Repara, repara nas nuvens; vão desatando / bandeiras de púrpura e violeta / sobre os montes e o mar. / Anoitece no Rio. A noite é luz sonhando”.

– É do Carlos Drummond. A senhora sabia, mãe?
– Sim, Clarice! Teu pai sempre recorda de Drummond para falar dos tempos em que morou no Rio.

O desejo de conhecer o mar vinha das conversas de pé de cama com o pai. Ele chegava pisando leve, com a barba negra e a voz grave aveludada; mão robusta de engenheiro acolhendo a pequena flor branca de dedos de Clarice. Se punha a contar estórias, e citava os versos do poeta nascido também naquela terra de ferro. “Filha, você vai conhecer o mar primeiro pelos versos de Drummond, depois vou te levar pra abraçar aquele azul”.


Clarice sonhava… Imaginava que o mar era milhares de borboletas azuis a namorar margaridas. Às vezes aparecia uma salamandra vermelha, outra, um besouro gigantesco. São seres marítimos, explicava. Bom mesmo é quando o desejo fica na espreita. O pai João Pedro prometera levar toda a família para viajar. Era só chegar do trabalho que fora fazer na região do Aço para levar a menina e a mãe através da estrada, até a ponta do litoral.

– Clarice, por que demorou? O tempo lá fora está frio e se gripar não vamos viajar!!
– Come o bolo e depois sobe pro banho.
– Mãe, vi o pai ao lado da jabuticabeira, ele estava acenando pra mim.
– Deixa de bobagens, menina, teu pai chega amanhã bem cedo. Ele está vindo para realizar o teu sonho de conhecer o mar.
– Tá bom, mãe. Vou acordar cedinho pra recebê-lo!

De manhãzinha, rumores na parte inferior da casa. Clarice desceu alegre, querendo o café e uma surpresa. No lugar encontrou muitas gentes, parentes de perto e de longe, a mãe no canto, braços da avó Mena, soluços e choro. Em cima da mesa, a manchete do jornal com a foto do pai João Pedro.

“Acidente fatal na estrada: dois engenheiros mortos”

– Clarice, vem cá, disse Judite, acolhendo a menina no colo.
– O que aconteceu com o pai, mãe?
– Ele teve de partir, filha, foi antes da gente! Mas disse que te ama muito e que sempre vai estar ao teu lado!
– Mas ele ia nos levar pra conhecer o mar! O pai prometeu! Abraço de mar, ele disse!
– Eu sei, filha! Mas ele teve de partir, teve de partir…

– Vó, vem! Entra comigo. Vem!

Os olhos de Clarice, de súbito, se voltaram para o corpo pequeno e a cara sardenta de Ana, sua neta. A menina puxava-a pelo braço para que entrassem no mar. À sua frente uma imensidão azul se desfraldava; bem próxima a música dos recifes. Sobre os pés daquela mulher de mais de 70 anos, a areia começava a esquentar. Ela mexia os dedos para sentir a textura áspera, e a pele branca e enrugada estava que entorpecida pelo sol. Os passos eram lentos, receosos da primeira investida das ondas, da longa espera daquele amor antigo. No primeiro contato com o mar, o beijo tácito, o abraço tomando o corpo todo, infindáveis partículas cobrindo braços, pêlos, pernas e lembranças. O mar cobria o corpo de Clarice e Ana, o azul marítimo sobre a pele branca, o universo todo inebriado com o encontro.

– Olha, Ana, é o abraço do mar!
– Vó, o que é?
– É o encontro das borboletas azuis com as margaridas! Vê, Ana! Vê!