Arquivo do mês: dezembro 2010

Poema do morro

por André Felipe Souza Cecílio
Do blog Conversa com versos

Estalos no escuro.
Noite de São João.

– Aqui, toda noite é de São João.
Bombas e fogos cruzam o céu
onde as estrelas se apagam assustadas
ante os lampejos nunca festivos.

Brincadeira já morreu
no fogo das fogueiras.

-pequenas bocas do Inferno
esquecido ao pé dos morros
crepitam sob as sombras.

Dante não sobreviveria.

– Quem não alimenta a fogueira
por ela é engolido.

Nos becos, canta a voz de Deus.
mas quem reina é o Diabo.

Às sombras das brasas,
não há criança que dance
que não seja adulta.

No céu, a lua é vazia.
– Em noite de São João,
São Jorge inexiste.
Nem o santo, nem a espada.

E o dragão assombra livre.

O “Poema do Morro” foi escrito pelo poeta André Felipe Souza Cecílio. Artista de peito cheio, multi-artista – seja com a guitarra tocando George Harrison e “The Beatles” ou nos palcos recitando poesia, interpretando, oferecendo a sua arte. André é mineiro, filho da minha amiga Andréa Souza, e publica seus versos e prosas no blog “Conversa com Versos”, que ora ofereço a vocês!

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Encontro marcado com Sabino

“O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome”.

(De uma carta de Hélio Pelegrino)