Arquivo do mês: agosto 2010

Pompô


– Dona Andréia, por favor, relaxa a musculatura.
– Mas doutor, estou super tranqüila.

(…)

– Dona Andréia, assim não tem jeito de fazer a consulta. Relaxa a musculatura, por favor! Por que a senhora está tensa?
– Doutor Abelardo, estou lhe dizendo que do lado de cá está relaxado. Não estou fazendo o mínimo esforço.
– A senhora não me vai dizer que está excitada? Por favor, sou seu médico há mais de dez anos. A senhora até conhece a minha esposa.
– Não doutor, não estou excitada. De jeito nenhum!

O médico então sai do meio das pernas da paciente, se posta diante dela e, com cara de nervoso, diz:
– É o seguinte, dona Andréia, se a senhora não relaxar a musculatura, não consigo passar nem dos lábios menores quanto mais chegar na cavidade varginal. Pelo amor de Deus, relaxa a musculatura!

– Tudo bem, doutor, prometo que vou tentar relaxar… MAIS!

O médico volta para a posição inicial, ou seja, o meio das pernas de Andréia.

De repente, um grito: Dooouuuuuuutttoooooorrrrrr, lembreiiiii!!

– Lembrou de que dona Andréia?
– Acho que funcionou?
– Funcionou o quê?
– O curso de pompoarismo que estou fazendo… O senhor disse que a musculatura está forte, então funcionou?
– Curso de quê? Pom…poar…ismo? Pompoarismo?
– Pompoarismo, doutor Abelardo, não é possível que o senhor não conheça. Um médico tão informado como o senhor!!
– Eu não conheço.
– Pois é. O pompoarismo é uma técnica criada na Índia que ensina a mulher a controlar os movimentos vaginais, e assim dar mais prazer ao parceiro. Os sábios acreditam que a musculatura pode ser desenvolvida para massagear o órgão do parceiro e, dessa forma, proporcionar mais prazer.
– Então, a senhora está exercitando a musculatura vaginal? Meu Deus, dona Andréia, será que a senhora e o seu marido não podem encontrar métodos mais convencionais.
– Mas, doutor, funcionou! O senhor disse que a musculatura está rígida, dura, humm, o Ricardo vai adorar.
– Ah, meu Deus, o Ricardo vai adorar!! Poupe-me dos detalhes íntimos, dona Andréia.
– Ué, doutor Abelardo, não precisa ficar tímido. Eu e o Ricardo até já jantamos com o senhor e a dona Maria Amélia.
– Isso não quer dizer que a senhora possa falar das intimidades de vocês. Além do mais, eu e minha mulher não praticamos exercícios com a vagina, dona Andréia. Quer dizer, não que eu saiba…
– Ah, doutor, deixa de ser quadrado! A técnica do pompoarismo ensina que podemos ter uma consciência maior, sentir mais prazer e proporcionar mais prazer ao parceiro. E o Ricardo vai adorar… humm…
– Dona Andréia, a senhora pode soltar o aparelho, eu não consigo retirá-lo, está preso. Ai, ai, dona Andréia, está preso.
– Funcionou, posso até pegar uma bola com essa musculatura.

(…)

30 minutos depois. O médico Abelardo está sentado na poltrona do consultório. Ao seu lado dona Andréia.

– Mas me fala, doutor, quer dizer que faz mais de cinco anos que o senhor não sente nada com a dona Maria Amélia na cama? É verdade?
– É, dona Andréia. Mas não é para falar por aí. Tudo está tão difícil, é tão improvável levar uma vida a dois, como um casal sem as coisas, a senhora sabe, da cama.
– Eu sei. Mas não se preocupe, doutor Abelardo, que eu vou ajudá-lo. Eu tenho a receita. Tome o telefone da Mercedes, é a minha terapeuta holística, consultora sexual das filosofias orientais, astróloga para assuntos amorosos, sexuais e da existência. Ela conhece as técnicas do pompô.
– Pompô?
– É o pompoarismo, doutor. Primeiro, o senhor aprende a técnica masculina. Depois leva a dona Maria Amélia para o curso. Aí, tudo se resolve.
– Não sei, não. Minha mulher exercitando os lábios, a canal vaginal, ai, o pompô, não sei não.

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Fronteira

No fundo fronteira
Rasa, atroz sem eira
Ou beira de mar,
De céu,
De deserto.

No fundo fronteira
Sertaneja cor de terra
Sagrada pelo Rio
Que dita as leis e reza.

Fronteira no fundo
Somos nós
Clara e escurecida,
Branca névoa
Fragmentos de corpo
E de palavra.

Corpo costurado,
Palavra des-costurada,
Paisagens em recostura
Por linha e cinzel.
Porque no fundo
Fronteira:
Incomunicável
Silenciosa
De água.

No fundo
O desassossego
De viver em fronteira.

Enfim, Luz

por Luiz Fernando Vianna

RIO DE JANEIRO – Moacyr Luz tem 52 anos, nove discos solo, canções gravadas por Maria Bethânia, Nana Caymmi e Gilberto Gil, uma rica e profícua parceria com Aldir Blanc, mas ainda é um compositor pouco conhecido -ou reconhecido.
Em parte, o próprio Moacyr é responsável por isso. Assumiu, em vez da estampa do artista sério, o personagem do perfeito boêmio carioca, que conhece todos os bares, seus fregueses e petiscos, e escreve sobre eles, tornando-se uma espécie de ombudsman da botequinagem.

Assumiu por um motivo apenas: ele é de fato esta pessoa.
Aquele clichê “um carioca como não se faz mais” se torna concreto com Moacyr. Mesmo forçado a trocar o chope pelo vinho, ele continua sendo o melhor carioca que se pode conhecer. Tem humor inteligente e ilimitado, e ainda comanda duas das melhores rodas de samba da cidade.

Não por acaso, é consultor e ídolo dos bares paulistanos que se inspiram no Rio. Até lançará um livro sobre o Pirajá, no estabelecimento de Pinheiros, em 21 de agosto. O livro também tem textos de Ruy Castro e ilustrações de Jaguar.
Mas, para almejar o reconhecimento que sua obra merece, Moacyr está ganhando o empurrão de outro carioca notório. Zeca Pagodinho escolheu para faixa-título de seu próximo CD, com lançamento previsto para setembro, “Vida da Minha Vida”, um belo samba feito por Moacyr com Sereno, do Fundo de Quintal.

Ser gravado por Zeca garante a injeção de uma quantia de cinco dígitos na conta e a música tocando no rádio. Melhor ainda se, ao contrário do que aconteceu com “Deixa a Vida me Levar” -que pouca gente sabe ser de Serginho Meriti-, a gravação ajudar a fazer de Moacyr Luz, enfim, um carioca nacional. Mas, se isto não acontecer, ele continuará a ser o carioca perfeito, o que já é bastante coisa.

ps.: Luiz Fernando Vianna está há quatro anos na Sucursal do Rio da Folha, cobrindo música e cultura. Antes daFolha, foi repórter e subeditor do Segundo Caderno do “Globo” e editor do Caderno B do “Jornal do Brasil”.

Vianna escreveu três livros sobre samba entre 2003 e 2004: “Zeca Pagodinho – A Vida que se Deixa Levar”, “Heranças do Samba” (junto com Aldir Blanc e Hugo Sukman) e “Geografia Carioca do Samba”. Foi jurado dos desfiles do Rio em 1996 e 1997.

O texto “Enfim, Luz” foi publicado na Folha neste domingo.

100 anos de Adoniran

Para começar as homenagens aos 100 anos do poeta de São Paulo, o mestre Adoniran Barbosa, vai o vídeo de Elis Regina cantando Iracema e outras coisas mais.

O encontro ocorreu no Bar da Carmela, no Bexiga em Sampa, no ano de 1978. Adoniran se comove todo escutando Elis, ela que foi uma das mais importantes interpretes do seu cancioneiro.