Arquivo do mês: julho 2010

Glossário da Cachaça – Mingote

A família Tolentino Neves, famosa em Minas pelo legado político de homens como o ex-Presidente da República Tancredo de Almeida Neves e o governador mineiro Aécio Neves, também fez sua história no universo da cachaça. A tradição familiar tem dois nomes: Mathuzalem 960 e Mingote. A primeira marca começou a ser produzida em 1960 por Múcio Tolentino, filho de dona Quita e irmão de Risoleta Tolentino Neves, na Fazenda da Mata, propriedade da família em Cláudio no oeste mineiro.

Ao longo de 25 anos, Múcio reuniu amigos e políticos na adega da família para degustar a “960”, como era conhecida. Um personagem que tinha cadeira cativa era o senador do MDB Tancredo Neves; dizem que ele ficava por ali tomando uma miudinha e escutando as histórias. Com a morte dramática do amigo Tancredo em 1985 após ser eleito Presidente da República, Múcio decidiu encerrar a produção da Mathuzalem 960.

Durante mais de 15 anos o engenho da família ficou parado. Em 2002, Tancredo Tolentino, filho de Múcio, comanda a retomada da produção de aguardente no município de Cláudio. Ele lança a marca “Mingote”, uma homenagem ao bisavô Domingos da Silva Guimarães, o seu Mingote, que comprou em 1823 as terras da Fazenda da Mata para produzir rapadura, açúcar mascavo e cachaça. “Domingos foi um grande produtor rural, que trouxe muitos avanços para a região. Isso sem falar da mão que tinha para produzir uma boa cachaça”, me contou o produtor durante uma entrevista em Minas.

Hoje a Mingote possuiu uma infraestrutura moderna de produção e destila anualmente 60 mil litros. A marca é conhecida por ser encorpada e de coloração clara, resultado do envelhecimento em tonéis de amendoim durante oito anos. Com 180 mil litros estocados na adega da família, Tancredo Tolentino garante que a cachaça tem conquistado muitos admiradores por todo o Brasil.

Para conhecer mais da Mingote
http://www.mingote.com.br/

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Glossário da Cachaça – Prosa & Viola

“E indo eles pelo caminho, duradamente se avistava o Morro da Garça, sobressainte.(…) Aí, quando chegavam no topo de alguma ladeira e espiavam para trás, lá viam o Morro da Garça – só – seu agudo vislumbre.”

João Guimarães Rosa, em “O Recado do Morro”

O Glossário da Cachaça começa a sua aventura em Minas no sertão roseano, mais precisamente no centro geográfico do Estado, no município de Morro da Garça. É nesta região que nasceu a cachaça Prosa & Viola, do engenheiro e produtor rural José Antônio de Souza.

Distrito de Curvelo, cujo ciclo da cachaça fez fama com nomes como “Florisbella”, “Correinha” e “Reis”, entre outras que marcaram época, Morro da Garça meteu na algibeira o legado cultural dos vaqueiros e das cantorias e produziu uma cachaça de qualidade e com a identidade da região. “Eu queria produzir uma aguardente com o gosto e o cheiro da minha região, com a cara do homem sertanejo, esse tipo que recebe o visitante na beirado do fogão à lenha e ali desfia sua prosa”, conta o produtor José Antônio.

A fazenda Alvorada, com área de 480 hectares, possui a beleza dos campos cerrados, sendo famosa por representar o início do sertão de João Guimarães Rosa. Dizem que foi passando por aqueles caminhos que o escritor descreveu com deslumbramento o Morro da Garça, uma elevação rochosa de 350 metros cercada de superfície plana. Chamado depois de “morro testemunho” e eternizado por Rosa no conto “O Recado do Morro”, o da Garça continua referência para vaqueiros e viajantes que passam pela região.

Alambique da Prosa & Viola

Foi ali que, em 2001, a Prosa & Viola comemorou a sua primeira safra. Porém, antes de ser comercializada, foi envelhecida em barris de carvalho por três anos para ganhar a característica aparência ouro. Em 2004, na Feira e Festival Internacional da Cachaça (ExpoCachaça), José Antônio e sua filha Daniela Vilaça de Souza montaram um balcão para a cachaça de Morro da Garça e começaram a prosear com os fregueses. Foi a entrada no mercado.

A Prosa & Viola tem baixa acidez e desce como mel na garganta do bom bebedor. E a cachaça amarela tem uma irmã branca, a Terra de Minas, também produzida por José Antônio na sua fazenda sertaneja.

Link
Site da Prosa & Vila

Glossário da Cachaça

Cachaça boa é de Minas, acho que ninguém discorda. Só mesmo um paraibano que encontrei um dia desses no Bar do Gomes, em Santa Teresa, que teimou de pé junto que as melhores são de Campina Grande, na Paraíba. Disse-me ele que tem uma tal de Volúpia que é de tirar o fôlego. Enfim, conversa de cachaceiro.

No final, eu paguei uma Prosa e Viola para o meu amigo nordestino, e ele se encantou. Até mais por conta dos meus argumentos, que disse que a Prosa é mineira de Morro da Garça, sertão roseano, e seduz pela coloração dourada, baixa acidez e um gosto de cana na medida certa, por conta do envelhecimento em barris de carvalho.

O comentário foi refinado e pensei logo em tecer um glossário, desses que a gente reúne uma informação aqui outra ali para falar de um assunto. No caso, um Glossário da Cachaça. Das mineiras, obviamente. Isso porque, meu amigo, tomar um trago de uma Boazinha, uma Da Boa, uma Claudionor (de Januária), uma Lua Cheia (Salinas), uma Áurea Custódia ou Dedo de Prosa (Piranguinho), é entrar neste universo de Minas, e se perder em causos, modas, comida quente e saborosa, regada pelo jeito acolhedor dos mineiros.

Acho que estou escrevendo por conta da saudade. Mas se a saudade não bastar, espero ficar rico com este glossário, “best-seller mineiro” que correrá o mundo. O primeiro quesito deste compêndio é ser de Minas e boa, mas bem humorado que sou darei espaço também às medianas, às fulanas e sicranas, que se não valem pelo nome gosto e corpo, valem pela ressaca e diversão.

E não foi que conheci um dia desses uma tal Izautina, branquinha bonita, mas que queimava feito o cão.