Arquivo do mês: março 2010

Drão…

Fim do expediente. Mais uma tarde de correrias, com casos de corrupção, números atualizados da tão afamada gripe suína pelo mundo e desvarios do novo Papa… Chego ao fim do dia com a sensação vazia como se tudo fosse mera repetição, tal qual o sentimento blasé do protagonista de “L’etranger” de Camus. Para desanuviar afrouxo a gravata, tiro o paletó e ando um pouco com uns cigarros no canto da boca para entender tudo. Só mesmo as vozes das ruas explicam esse mistério da vida.

No caminho encontro as cores que tanto busco, é o seu Silas do carrinho de cachorro-quente, que nos recebe com um sorriso maior que o mundo e continua afirmando que o Brizola foi o maior político que o Brasil já teve, ou a dona Maria Flores vendedora de rosas para os defuntos do hospital central. Dona Maria diz que Deus lhe escolheu o destino lá no cartório quando os pais registraram seu nome, depois foi só provação. Gosto mesmo é de conversar com essas figuras nas ruas… Outra cachaça que tenho é a música. Uma canção, dessas perfeitas que unem melodia e letra, pode salvar uma vida ou, pelo menos, dar alegria a uma rotina cinzenta.

Depois de um dia cansativo, entro no ônibus cantando Drão de Gil para acalmar as ideias: “Drão, o amor da gente é como um grão / Uma semente de ilusão / Tem que morrer pra germinar”. Sento-me numa poltrona diante de uma estrutura de vidro, quase uma paliçada que dá para a porta de saída. Ali me enfurno em minha canção. O que queria dizer Gil ao compor esses versos? O que sei é que não consigo parar de cantar: “Plantar n’algum lugar / Ressucitar no chão nossa semeadura / Quem poderá fazer, aquele amor morrer / Nossa caminha dura / Dura caminhada, pela estrada escura… Drão”

De repente, na divisória em vidro à frente, vejo refletida a imagem de uma moça morena que me escutava e sorria com os olhos e com a boca. Ela prestava atenção em mim ou em Gil, ou em Drão?

De minha posição, via a sua imagem refletida, o contorno de sua boca carnuda, os olhos um pouco puxados orientais, o cabelo encaracolado. Mais forte ainda era a energia dos gestos, que mostravam uma mulher bonita.

Quando ela percebeu que eu a tinha notado, fugiu com os olhos, num disfarce de constrangimento. Sem saber o que fazer, voltei a cantar a música do poeta que fala sobre o fim do amor. “Drão não pense na separação / Não despedace o coração / O verdadeiro amor é vão / Entende-se infinito, imenso monolito / Nossa arquitetura…”.

– A música é bonita! – comentou a moça morena que deixara de dialogar pelo reflexo do espelho e agora olhava diretamente pra mim.

– Eu também acho, Gil fala muito bem do amor, tentei explicar.

– Você sabe o segredo dessa canção?

– Não, eu disse.

– Gil a compôs depois de perder o seu filho Pedro, o Pedrão, que morreu num acidente de carro.

Ela então cantou: “Drão os meninos são todos sãos / Os pecados são todos meus / Deus sabe a minha confissão / Não há o que perdoar / Por isso mesmo é que há / De haver mais compaixão / Quem poderá fazer, aquele amor morrer / Se o amor é como um grão / Morre nasce trigo / Vive morre pão / Drão, Drão…”

Da boca da mulher morena, a canção de Gil ganhava outros contornos. Quando voltei os meus olhos ao espelho da divisória do ônibus ela deixou-se olhar, encarou-me de frente embora estivesse ali ao meu lado. Soltou um sorriso que refletido chegou a mim.

Piiiiiiiii!!! Soou o sinal do ônibus. Ele parou. A moça pediu licença, sorriu com os olhos e a boca e saiu.