Arquivo do mês: janeiro 2010

Clube do Samba (1979)

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Sob o signo do samba

Compositor Ronaldo Coisa Nossa

Compositor Ronaldo Coisa Nossa lança primeiro disco da carreira em homenagem ao povo do morro e à velha guarda do samba

São mais de 45 anos de trajetória pelo mundo do samba, cantando nas rodas do morro e do asfalto a beleza do batuque mineiro. Agora, o compositor e cantor Ronaldo Coisa Nossa lança seu primeiro disco, “Sob o signo do Samba”, uma homenagem ao povo negro e à velha guarda.

Seu Ronaldo, como gosta de ser chamado pelos amigos, é descendente direto dos grandes cronistas, que se inspiram na vida do homem comum, em seus dilemas, lutas e dissabores para fazer música. Na primeira faixa do álbum, intitulada “B.Q.”, Ronaldo canta a região da Lagoinha, ali no “Buraco Quente” onde viveu parte de sua juventude e aprendeu de “ouvido” a tocar e a amar o samba. “Eu ficava ali ao lado dos sambistas só observando. Foi assim que aprendi a tocar a ‘resposta’, que é o surdo de segunda, aquele que responde à primeira marcação.”, brinca. O compositor explica ainda que a música é uma homenagem à sua origem no morro, celebrada no refrão: “Afinal de contas meu berço… B.Q.”

Outro destaque do disco é a faixa “Mercadão”; nela Ronaldo canta com humor a história do malandro, que dá uma “gaita” para sua mulher comprar arroz e feijão lá no mercadão, mas ela adquire, por ironia, vestido e sapatos novos. O samba é cortado ainda pela beleza do trombone de Hélio Pereira.

OPÇÃO

Parte da história de Ronaldo Coisa Nossa está ligada ao bar Opção. A casa foi fundada no começo da década de 90 para oferecer boa música aos trabalhadores que estavam construindo o shopping Del Rey. Em pouco tempo, o bar se tornou um reduto de compositores, artistas e apaixonados pelo samba.

Ali, seu Ronaldo mantém a tradição da roda de batuque, seja com partideiros, sambistas românticos ou a galera do balanço.  Na música “Sarta fora que é rabis”, presente no “Sob o signo do samba”, o compositor lembra aos desavisados que é bom respeitar a velha guarda nos versos “Respeite a nata que se encontra no ambiente / Aqui é lugar de samba quente / Se você não gosta dê no pé”.

SAMBA DE RAIZ

O primeiro disco de Ronaldo Coisa Nossa foi gravado por uma equipe de músicos mineiros de primeira linha, como Binha do Cavaco, Marraia, Airton Cruz, Gilberto Mauro, Marlon Santos, Daniel Rodrigues, Hélio Pereira, João Batera e Esdras “Neném” Ferreira.

“Sob o signo do samba” é acima de tudo um disco de samba raiz, com marcação lenta e brilho de velha guarda.  “Com esse ritmo de cadência, dá tempo até de contar os enfeites na roupa da baiana”, explica o compositor. Em versos que tratam do amor e das lutas do povo, Ronaldo Coisa Nossa mostra que esse gênero continua vivo e altivo, presente nas rodas da capital mineira e das Minas Gerais.

***

Foi no subsolo do bar Opção que Ronaldo construiu o estúdio “Kilombo Coisa Nossa”, onde gravou seu primeiro disco. Autor de mais de 100 composições, ele promete que não vai parar: “A vida só está começando”.

Mais informações, no site do seu Ronaldo e do bar Opção:

http://www.ronaldocoisanossa.com.br
http://www.baropcao.com.br

Para quem quiser escutar um bom samba e comprar o disco, o endereço é um só:

Opção Bar – às sextas e sábados
Rua Alabandina, 619 – Caiçara (atrás do Shopping Del Rey)
Telefone: 3415-6905
Horário: das 18:30 às 00:00

Uma ilha, um livro

uma ilha um livro 2

– Você vai passar o resto dos seus dias numa ilha deserta e pode levar um livro – ela diz.

– Um só?

– Um só. Qual você escolhe?

Ele pensa um pouco.

– Nenhum.

– Como, nenhum?

– Nenhum. Não vou ler, morto não lê.

– Não – ela ri – quê isso, na ilha tem comida à vontade, você não morre. Só fica lá de bobeira, vivendo superbem e… lendo um livro.

– Pode ser que você fique lá, lendo esse livro. Eu não fico porque me mato antes.

– Se mata…

– Mato, mato. Um livro só? Mil vezes a morte.

Ela fica meio desconcertada porque é a primeira vez que um homem bagunça assim o seu teste, mas acaba decidindo que gostou, gostou muito, mais até do que se ele dissesse Estrela da vida inteira, Em busca do tempo perdido ou outra das respostas que ela costumava classificar como “certas”. Olhando para o homem do outro lado da mesa do restaurante, vê alguém que nunca viu antes. Pela primeira vez tem vontade de beijá-lo e pensa, sentindo uma moleza nos joelhos, que a noite promete.

Enquanto isso, ele fica matutando que a idéia de um único livro sobreviver ao fim do mundo deve ser mesmo insuportável. Está até um pouco espantado, quase eufórico: caramba, acho que não dei apenas uma resposta espirituosa, isso é uma tremenda verdade! Um livro só? Melhor morrer. Quer anotar a idéia num guardanapo, depois desiste, distraído com o decote que se descortina do outro lado da mesa. E também pensa que a noite promete.

Agora a promessa já se cumpriu. Na cama dele, sob o lençol amarfanhado, ela ronrona, cabelos espalhados em seu peito, enquanto ele fuma. É o momento daquela volta lenta ao mundo da linguagem articulada, depois da rendição momentânea aos grunhidos da selva. Foi bom, foi muito bom. E ele fala:

– Sabe aquela história da ilha deserta?

– Hmm.

– Eu disse que me matava se tivesse só um livro…

– Ah, eu adorei. Nunca ninguém me respondeu assim.

Ele fica uns segundos em silêncio, espreme o cigarro no cinzeiro.

– E se fosse um game?

– O quê?

– Se em vez de um livro eu pudesse levar um videogame. Um só. Sabe qual seria?

Ela ergue a cabeça do travesseiro peludo do peito dele. Sente frio de repente.

– Hmm.

– Sonic. Sou louco pelo Sonic. É antiguinho, mas eu podia ficar a vida inteira fazendo aquele porco-espinho pular…

Diz isso e, com um sorriso, se deixa levar pelo sono: menos de um minuto depois está ressonando.

Ela pula da cama. Arrepiada de frio, sai andando nua pelo apartamento, que mal teve tempo de ver quando chegaram, ocupados que estavam em se morder, arrancar as roupas e atravessar a sala na direção do único quarto.

A sala tem um sofazinho de dois lugares. Uma poltrona, jornais espalhados pelo chão. Uma estante pequena com prateleiras tomadas por garrafas de cachaça, licor, uísque, canecão de chope com o escudo do Flamengo, CDs. Ah, sim, um livro também. Um livro solitário. Ela se aproxima, temerosa, e lê na lombada, à luz fraca da rua que entra pela janela: Onze minutos, de Paulo Coelho.

Mas já é tarde demais.

***

O conto “Uma ilha, um livro” é do jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, um mineiro dos bons radicado há alguns anos no Rio de Janeiro. É dele o blog “Todo Prosa”, que está aportado no site da IG. Vale a pena conferir.