Arquivo do mês: novembro 2009

Caminhos do mar de Dorival Caymmi

“Canções  Praieiras” (1954)

CANÇOES PRAIERAS DORIVAL

“Quero as profundezas do amor

de Estela Maris e Dorival Caymmi”

1954 pode ser lembrado como o ano em que o Brasil escutou pela primeira vez um novo gênero musical, que marcaria de forma definitiva os rumos e caminhos da canção brasileira. Naquele ano, a produtora Odeon lançou um LP com oito faixas, cujo título era “Canções Praieiras”. Na faixa de número 1, os ouvintes da época escutaram a voz grave e o violão nostálgico e perfeito que diziam: “Quem vem pra beira do mar, ai / Nunca mais quer voltar, ai”. A canção, que celebrava a relação do pescador com o mar, caiu logo no gosto do público, acompanhadas é claro de outros sucessos como “É doce morrer no mar”, “A Jangada voltou só” e “Saudade de Itapoã”.

O compositor daquelas melodias e letras era Dorival Caymmi. Na época, ele já era conhecido como o baiano de Carmen Miranda, pois era o autor de sucessos como “O que é que a baiana tem?” e “A preta do Acarajé” que fizeram de Carmen um estrela de Hollywood. Mas foi mesmo com as “canções praieiras” que Caymmi alcançou, aos 40 anos de idade, o apogeu da sua música.

Para o folclorista Luís da Câmara Cascudo, Dorival Caymmi inventou um gênero, já que não havia antes nada que se assemelhe às suas praieiras; músicas como “A Lenda do Abaeté”, “O Vento”, “Canoeiro” e “O Mar”, trazem um violão único que se transforma nas coisas que canta, apagando as fronteiras entre a música e o que ela “descreve”.

Para quem escuta o LP, a sensação que fica é de que o sargaço, a rede, a jangada, o dorso do pescador, o amor de Rosa por Pedro, tudo está inebriado pelo violão e a voz do cantor.

DEPOIMENTOS

DORIVAL E O MAR

Em setembro deste ano, a Fundação Antônio Carlos Jobim lançou o site www.dorivalcaymmi.com.br com todo o acervo musical, fotos, pinturas, esboços e outras artes do compositor baiano. Na página principal, o leitor encontra o depoimento de Caymmi que explica a gênese da sua paixão pelo mar e a vida dos pescadores.

“Os negros e os mulatos que têm suas vidas amarradas ao mar têm sido a minha mais permanente inspiração. Não sei de drama mais poderoso do que o das mulheres que esperam a volta, sempre incerta, dos maridos que partem todas as manhãs para o mar no bojo dos leves saveiros ou das milagrosas jangadas. (…) Tratei desses motivos porque nada mais sou que um homem do cais da Bahia, devoto eu também de Yemanjá, certo eu também que estamos todos nós nas suas mãos, rogando-lhe que não envie os ventos da tempestade, que seja de bonança o mar da minha vida”.

Dorival Caymmi acima de tudo cantou o amor. Descreveu o cotidiano dos pescadores da sua Bahia, das dores e alegrias nos saveiros, falou da possibilidade sempre viva do encontro.

HISTÓRIAS

Em 30 de abril de 1940, o compositor casou-se com sua estrela, chamada Stela Maris (do latim estrela-do-mar). Dizia Jorge Amado, amigo do casal, que foi a mulher quem ensinou a Caymmi a ter os pés no chão. “Ele não teria feito nem um terço do que fez se não tivesse ao lado dele Stella Maris, que o sustentou, que lhe deu os pés na terra. Porque ele é um sonhador, está no ar, ele é um ser muito especial, muito extraordinário, preguiçoso, vive da amizade, da ternura”, disse o escritor.

Em 16 de agosto de 2008, Caymmi morreu em decorrência de um câncer renal contra o qual lutava havia nove anos. Dizem uns que foi para o céu. Outros acreditam que assumiu sua forma de deus do mar. Stella resistiu somente 11 dias na terra, depois partiu também ao encontro de Caymmi.

***

“Dificilmente encontraremos, no mundo inteiro, tal reunião de compositor e interprete. Caymmi realiza o milagre, deixando o ouvinte sem saber qual o maior. E quando ele próprio se acompanha ao violão, como em todas as faixas de Canções Praieiras, o resultado é perfeito”. (Revista da Música Brasileira, nº 4, janeiro de 1955)

Não parece coisa feita por gente: parece o canto das coisas em si”. Arnaldo Antunes, músico e poeta

Para baixar “Canções Praieiras” clique aqui no blog Um que tenha.

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