Confidência de um jornalista cultural que não vai ao teatro

Eu quase não vou ao teatro. Nos últimos quatro anos, posso dizer que assisti a uns sete ou oito espetáculos teatrais. O que não representa nada perto do número de filmes que vi, livros que li sobre os mais diversos assuntos e discos que fui catalogando e escutando com puro deleite. Escrever sobre cultura tem a ver, é claro, com gosto; mas, como manda a cartilha de todo bom jornalista cultural, pesquisar, estar aberto a todas as possibilidades artísticas, conhecer as técnicas e, principalmente, estar sempre na rua, espaço por excelência da vida e, em decorrência, da arte, é regra, que deve ser seguida.

No entanto, nada é tão ideal assim; e por um motivo ou outro, eu não ia ao teatro. Mas, eis que surgiu o Núcleo de Jornalismo Cultural do Galpão Cine Horto, uma proposta inovadora, como tantas do grupo Galpão: alunos de comunicação, jornalistas, profissionais das Ciências Sociais, Letras, Belas Artes, Filosofia, gente das mais variadas formações se encontravam todas as quintas-feiras para conhecer um pouco das teorias e técnicas da cobertura jornalística de cultura.

A última etapa do curso dizia respeito à parte prática: tratava-se da cobertura do Festival de Cenas Curtas, com produção de reportagens, entrevistas e críticas teatrais. Para mim, era a certeza de uma maratona de cenas; e, obviamente, um misto de apreensão e euforia quanto à qualidade delas. Tinha a certeza que iria ver bons trabalhos. A questão era o número de cenas ruins que estava pela frente.

Mas, para minha surpresa, logo na abertura do festival uma canção dramática de Bethânia e Cafusca chorando em profusão de lágrimas porque seu marido-palhaço havia lhe deixado. Era o “Boxe com Palhaçada”, que ganhara como a melhor cena do Festival Breves Cenas, de Manaus, e estava participando como convidado em Belo Horizonte. O público não parou de rir…

Por falar nisso, a última participação do Cenas Curtas 2009, “O Seqüestro”, de Salvador também homenageava a profissão do clown. Uma dupla de palhaços seqüestrava um bebê e se metia em inúmeras trapalhadas. Para nós, o público, um sentimento de alma lavada e a lembrança de Carlitos.

Outra surpresa foi “Dia de Prova”, de Curitiba, que usando a técnica da máscara neutra apresentou uma cena perfeita, lírica e cheia de expressividade, presente em cada movimento mínimo dos corpos.  Vi ainda a cena “A Mudança”, do Cia. do Chá, um diálogo com o romance “Metamorfose”, de Franz Kafka. Na cena em ritmo de “thriller”, Gregor acorda absurdamente mudado. Mas ao contrário dos silêncios e desprezo velado da família Samsa (obra literária), surge a ironia e o deboche – com pai, mãe e irmã jogando bolinhas de naftalina para o personagem transformado em inseto.

Vendo aquelas várias cenas, senti um misto de prazer, desgosto, incômodo, tédio, incompreensão, êxtase, riso e alívio. Me surpreendi. Ri diante do improvável improviso.

Por tudo isso, talvez me pareça que o TEATRO SEJA A ARTE DO FUTURO. Mais do que as outras artes e contrariando a voz de alguns críticos que afirmam que esse mesmo teatro caiu no ostracismo, digo que, talvez, o TEATRO SEJA A ARTE MAIS NECESSÁRIA.

Neste nosso tempo de máquinas, comunicações, celulares, TVs, sites, chats, blogs, vlogs, redes, relacionamentos online, pulverização da imagem e do virtual, isso sem falar do capitalismo e individualismo exacerbados. Tempo em que as distâncias acabaram, mas prevalece o preconceito, a dificuldade de lidar com o diferente, com o Humano, tempo da não tolerância e da não-palavra. A arte teatral tem papel fundamental.

Isso porque o teatro não é nada sem o público. O teatro não é nada sem o humano. Todo espetáculo é uma doação; o ator está doando a arte que produziu e, ao mesmo tempo, doando seu corpo, seu sangue. O teatro e também a arte do presente. Cada espetáculo se transforma no momento em que é apresentado, depende do acaso, da energia entre o público e o ator; é, portanto, único. Essa urgência traz um poder muito grande para o teatro, é como se se colocasse um espelho no palco e o público se visse por inteiro.

Desse modo, mesmo naquelas cenas que não gostei vi a doação e a generosidade do ator, e não pude deixar de sentir respeito por quem estava ali, no palco do Cine Horto.

Ao Cenas Curtas mais 100 anos de vida, pela experimentação, pela possibilidade do diálogo entre o novo e o velho, pela maturidade do grupo Galpão em forjar os moldes de um festival que tem tudo para apontar os rumos de novos tempos. Meus parabéns!

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