Arquivo do mês: fevereiro 2009

Andalucía

1932 significou um momento decisivo na vida de um francês, cujo nome ficaria marcado para sempre na história como sinônimo de homem livre, fotógrafo brilhante, cultor das artes e da memória. Foi naquele ano que Pierre Verger conheceu a fotografia. Ele vivia um período de crise existencial, já cansado da sociedade burguesa parisiense; sua mãe, último vínculo familiar, acabara de morrer. Verger então decidiu dar uma reviravolta em sua vida: acompanhado de sua Rolleiflex 120, iniciou uma viagem que o levou a Rússia, Taiti, Nova York, Los Angeles, China, Japão, Filipinas e… Espanha.

À terra de Cervantes, Pierre Verger chegou em março de 1935 montado numa bicicleta via Portbou, na província de Girona. Depois passou em Barcelona para ver as obras arquitetônicas de Gaudí. Mas foi em terras de Andaluzia que o fotógrafo ficou mais tempo… Ali ele percorreu Granada, os Jardins do Generalife e os bairros ciganos de Albacin; ali conviveu com o povo, viveu o seu cotidiano e fotografou todos os elementos culturais e históricos. “Na Semana Santa de Sevilha pude ver o fervor quase bárbaro que causava a passagem, pelas ruas estreitas do centro da cidade, da Virgem da Macarena ou do Jesus do Grande Poder. Ainda era a Espanha de antes da Guerra Civil, que já estava muito perto, e que ia estourar alguns meses mais tarde”.

O resultado dessa primeira viagem foi o catálogo En España, publicado em maio daquele ano em Paris pelo editor Paul Hartmann, que manteve uma colaboração de mais de trinta anos com o fotógrafo francês. Para Verger, a fotografia era o testemunho do que acontece fixado em um instante, “que pode ser sentido por outros de forma espontânea, revelando uma sensibilidade comum que dificilmente se pode expressar”.

EXPOSIÇÃO

Agora o público mineiro pode conhecer um pouco do período em que Pierre Verger percorreu as terras espanholas. A exposição “Andalucía 1935”, uma iniciativa da Embaixada da Espanha/ Centro Cultural da Espanha em São Paulo da AECID – Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, apresenta 70 fotografias em preto e branco, que poderão ser apreciadas no Museu Inimá de Paula, até o dia 05 de março. Uma imersão num país que vivia o seu “biênio negro”, marcado pelo retrocesso político e instabilidades. Período conservador em que a Espanha estava prestes a imergir no caldo da extrema direita de Franco, tendo como resultado os horrores da 2ª Grande Guerra.

A exposição apresenta o cotidiano da região de Andaluzia (de Al-Andalus, nome que os mouros davam à Península Ibérica no século VIII) e suas várias províncias. Partindo de Sevilha, encontramos o “Vendedor de boinas”, a foto mostra o feirante ali parado no mercado da cidade, cristalizado num tempo antigo. Pierre Verger explorava as sombras e a geometria dos objetos, e seus contornos.

Sevilha é marcada pela religiosidade. Da semana santa há uma foto de uma andaluza belíssima, que caminha de negro durante a procissão santa. Há ainda fotos da catedral da cidade, de sua “calles” , da fábrica de tabacos, do dia-a-dia do povo.

O curador da exposição Jesús Cañete Ochoa explica que Verger “é um fotógrafo interessado no ser humano, interessado em mostrar sua riqueza… ele fotografa de corpo inteiro. Por seu temperamento é uma pessoa que registra as coisas e que não explica”.

Em seus registros, encontram-se as ciganas (gitanas) de Granada, que mostram um sorriso aberto espanhol e os penduricalhos e enfeites de sua classe. Há também os trabalhos no mercado de Córdoba; as senhoras nas estradas de Sorbas e Cordue. Um olhar sempre amável, livre, que Pierre Verger concebia e compartilhava com aqueles que estavam no enquadramento de sua câmera.

Pierre Verger – Andalucía 1935

Visitação: de 22 de janeiro a 05 de março de 2009.

Terça, quartas e sextas-feiras, das 10 às 19h.

Quinta das 12 às 21h, sábado das 10h às 18h.

Museu Inimá de Paula (Rua da Bahia, 1201, centro).

http://www.inima.org.br

Teatro: A Arca de Vinicius

“Senhoras e Senhores, no palco:

A Arca de Vinicius”

Arca de Vinicius

Arca de Vinicius

Lá vem o Pato / Pata aqui, pata acolá / Lá vem o Pato / Para ver o que é que há…

Quem não conhece as músicas de O Pato, A Casa, A Pulga e A Corujinha? Essas canções que fazem parte, há quase três décadas, da tradição do cancioneiro popular brasileiro, tendo sido escutadas por gerações de crianças e adultos, nasceram primeiro em versos no livro “A Arca de Noé”, de 1970, publicado pelo poeta Vinicius de Moraes.

Única obra do Vinicius voltada para o universo infantil, “A Arca…” foi musicada somente dez anos depois, quando Toquinho e Tom Jobim resolveram homenagear o falecido amigo, gravando um especial para tv em que cantavam os seus poemas. Participaram também daquela gravação do dia 12 de outubro, Milton Nascimento, Chico Buarque, Elis Regina, Ney Matogrosso e tantos outros. O resultado foram dois álbuns homônimos que reuniram canções antológicas, celebradas por inúmeros fãs.

Agora, eis que surge a oportunidade para o público belo-horizontino escutar as músicas e conhecer de perto o lirismo e o humor do poeta carioca. O espetáculo “A Arca de Vinicius”, fruto de uma pesquisa musical da Cyntilante Produções, narra a história de Vinicius, um menino que sonha com um mundo melhor. Ao receber uma carta anônima solicitando a sua presença numa “Escola”, local em que seu desejo será realizado, o garoto começa sua aventura.

Durante o percurso, Vinicius encontra a Coruja, o Leão, o Pingüim, a Foca, a Pulga e tantos outros que o ajudam a descobrir que o conhecimento, a poesia, o bom humor, a música e a literatura são coisas importantes para um mundo mais justo, com as pessoas olhando no olho das outras com generosidade e respeito.

Com cenário de Cynthia Dias, arranjos e direção musical de Fernando Muzzi, texto de Léo Mendonza e direção de Fernando Bustamante, “A Arca de Vinicius” nasceu como homenagem aos 50 anos da Bossa Nova. A idéia do grupo era revitalizar o acervo dos dois discos, mostrar ao público a qualidade musical de todas as canções.

Dois planos

Para trabalhar a encenação, Bustamante criou dois planos cênicos: o terrestre, onde Vinicius conversa com os bichos, e o celeste, onde fica o personagem São Francisco, espécie de mentor da história. Em cada plano, determinado por andaimes, um instrumento musical simboliza aquele universo. Violoncelo e teclados caracterizam o céu, através da referência erudita; já o violão traduz a música popular, terrena por natureza.

Destaque

A menina Hadassa Baptista, de 11 anos, interpreta o menino Vinicius. O diretor Fernando Bustamante conta que queria um garoto negro para homenagear o poetinha, considerado “o branco mais preto do Brasil”. A tarefa não foi fácil. Num dia de testes apareceu Hadassa, uma menina linda, tímida e calada. Ninguém acreditava que ela seria o Vinicius. Mas quando ela começou a cantar, o personagem já havia escolhido o seu dono.

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Postei no blog Prosa com Cultura (https://prosacomcultura.wordpress.com/) um vídeo do especial “A Arca de Noé” para tv, com Bebel Gilberto, aos 10 anos, cantando A Pulga.

Serviço:
Evento: A Arca de Vinícius –  35ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança
Data: 1º de março
Horário: domingo, às 17h e 19h
Local: Grande Teatro

Preço: R$ 24 (inteira), R$ 12 (meia-entrada*) e R$ 10 (Sinparc)
Classificação etária: livre
Balcão de informações: (31) 3236-7400 – Horário de funcionamento durante o mês de janeiro de 2009: segunda-feira a domingo, de 14h às 21h
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A pulga – por Bebel Gilberto

Bebel Gilberto cantando A Pulga, no especial em homenagem a Vinicius de Moraes.