Arquivo do mês: janeiro 2009

Roda de samba na Portela

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Disco na Vitrola 3 – Tudo Azul

Tudo Azul – uma homenagem definitiva

à Velha-Guarda da Portela

Foi em 1995 que Manacéa José de Andrade, um dos mais antigos compositores da Portela, faleceu. Humilde e muito tímido, Manacéa não gostava de se mostrar. Os admiradores que chegavam a Oswaldo Cruz para conhecer a agremiação, demoravam a perceber naquele negro de estatura mediana a grandeza e sabedoria do berço do samba. Discípulo de Paulo da Portela, do qual herdou a educação, a disciplina e elegância de ser compositor, Manacéa morreu sem ter participado de uma das maiores homenagens que se fez à velha-guarda portelense, um CD de 18 faixas, chamado Tudo Azul.

O disco começou a ser concebido em 1998, quando a cantora Marisa Monte iniciou uma pesquisa em busca de sambas antigos, muitos inéditos, de autoria da velha-guarda; o mesmo percurso que Paulinho da Viola fez no começo da década de 70, quando lançou o LP “Portela passado de glória”, revelando os compositores de Oswaldo Cruz para todo o Brasil. No trabalho de Marisa, foram catalogadas mais de 300 músicas a partir de entrevistas, cadernos de anotações esquecidos, catálogos e no acervo do Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro.

Com direção musical e arranjos do violonista Paulão 7 Cordas, Tudo Azul tentou abranger o maior número possível de compositores portelenses, priorizando músicas pouco conhecidas fora do círculo da agremiação. São 12 sambas completos e seis vinhetas, nos quais quase sempre o próprio compositor apresenta sua criação. Exemplo de “Eu te quero”, cantada por Jair do Cavaco; “Vai saudade”, com David do Pandeiro; “Portela desde que nasci”, com o mestre Monarco; “Vem amor”, com Casquinha, e “Tentação”, com o inesquecível solo de Casemiro da Cuíca. Completaram o time da velha-guarda Áurea Maria, Eunice, Argemiro, Cabelinho, Sérgio do Cavaco (Procópio) e Aracy.

Aos compositores portelenses que já estavam sambando lá no andar de cima, o disco presta sua reverência. As pastoras cantam com Cristina Buarque de Holanda a música “Minha vontade” (1955), de Chatim. Cristina, cantora e pesquisadora do samba, cujo trabalho tem revelado a qualidade de compositores esquecidos como Wilson Batista, dá um tom de lirismo à interpretação.

Para homenagear o saudoso Manacéa, Marisa Monte escolheu três sambas que retratam o lirismo, a filosofia de vida e a beleza que ele impunha a cada uma de suas composições. Em “Nascer e florescer” (1955), escutamos num ritmo cadenciado a sabedoria do homem do morro, que crê em Deus e valoriza o amor. Os versos dizem assim: “Não tenho ambição neste mundo, não / Mas sou rico, da graça de Deus / Tenho em minha vida um amor de valor / É o meu tesouro encantador / Mas sei que reclamas em vão / Porque não tens / A compreensão / Que o mundo é bom / Para quem sabe viver / E se conforma / Com o que Deus lhe dar / A nossa vida é nascer e florescer / Para mais tarde morrer”.

Manacéa

Manacéa

Em “Volta meu amor” (1972), música de Manacéa em parceria com sua filha Áurea Maria, quem canta é a própria Marisa os versos de súplica, do sambista que pede o retorno de sua amada: “Vem para os meus braços não me diga mais adeus / Eu só quero ouvir amor dos lábios teus / O teu perfume quero sentir / Entre os meus braços o teu calor / Tão forte quanto o meu amor”.

Um dos destaques, ponto alto mesmo do disco, é a participação do mestre Paulinho da Viola na faixa “A noite que tudo esconde”, de Alvaiade e Chico Santana. Densa e sintética, como todo belo poema, o samba fala da perda do primeiro amor. Paulinho canta com Monarco, de maneira inesquecível.

Após o lançamento de Tudo Azul e do sucesso de público e crítica, Marisa Monte foi reverenciada por Monarco, em nome de todos os integrantes da velha-guarda: “É a nossa deusa querida”. O disco elevou Marisa ao panteão dos jovens músicos, como Paulinho, Crisitina e Zeca Pagodinho, que de tempos em tempos nos reaviva a memória, mostrando que existe lá pelos subúrbios de Madureira e Oswaldo Cruz o melhor da música brasileira.

Tudo Azul incentivou ainda outras velhas-guardas, seja a de Mangueira, Estácio, Império, Vila Izabel, a mostrar seus sambas, a relembrar seu passado.

***

No dia 8 de janeiro de 2009, Casemiro da Cuíca, o mais velho integrante da Velha-Guarda da Portela, que iria fazer 90 anos em março, faleceu. O som de sua cuíca estará para sempre eternizado na faixa de n° 10, chamada “Tentação”, do disco Tudo Azul.

O disco Tudo Azul foi lançado em 2000 pelo selo Phonomotor Records, de Marisa Monte, e distribuído pela EMI/Music.

“Velha-Guarda não é uma questão de idade ou longevidade, mas de identificação com certas matrizes de criação musical carioca.” – frase do professor João Batista Vargens, um apaixonado pela escola de Oswaldo Cruz, que escreveu a biografia “Candeia. Luz da inspiração” (Rio de Janeiro, Funarte, 1997).

Disco na Vitrola 1

Joyce e o seu Passarinho Urbano

Capa Passarinho Urbano

Capa Passarinho Urbano

Para inaugurar o espaço Disco na Vitrola, do  blog Prosa com Cultura, resolvi presentear os amigos com um disco lindo da cantora Joyce. O nome é Passarinho Urbano e eu o encontrei nas minhas andanças pelo norte, remexendo nas coleções de parentes, à procura de coisas antigas para escutar.

Agradeço logo à minha madrinha Cecy pela generosidade e bom gosto – por todos esses anos de boa música e arte.

Passarinho Urbano foi gravado em 75/76 em Roma, quando Joyce fazia turnê na Europa em companhia de Vinicius de Moraes e Toquinho. Era um período duro de violência no Brasil e em outros países da América Latina, muitos músicos viviam no exílio e cantavam canções de protesto contra a ditadura e as arbitrariedades. Em Roma, Joyce conheceu o produtor musical Sérgio Bardotti, também compositor e parceiro de Chico e Vinicius. Ele a convidou para gravar um disco para a série Folk Internazionale, da gravadora Fonit Cetra, mas só com músicas urbanas do Brasil.

Então, Joyce foi lá no seu baú e tirou peças lindas, sambas antigos e canções que carregavam a marca da resistência de vários períodos da história do país. Como “De frente pro crime”, da dupla Aldir Blanc e João Bosco, uma crônica das ruas que Joyce interpreta magistralmente. Há também o samba inaugural “Pelo telefone”, de Donga, aqui numa roupagem mais conspiratória.

Outro sambista que aparece é o lírico Zé Ketti com o samba “Opinião” – Joyce canta alto o grito do povo que vive no morro “Podem me prender / Podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Mas eu não mudo de opinião / Daqui do morro eu não saio, não / Daqui do morro eu não saio, não.”

Passarinho urbano também canta Chico Buarque (Acorda amor), Paulinho da Viola (o já clássico Quatorze anos), Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro (Pesadelo), Vinicius e Carlos Lyra (Marcha da quarta-feira de cinzas)…

Canta Sillas de Oliveira (Radiopatrulha), tem mais Capinan e Edu Lobo (Viola fora de moda), além de um samba lindo do compositor Sidney Miller (Pede Passagem).

Quem conhece aquela lenda que conta o nascimento do samba? Aquela tal anedota, cheia de humor carioca do “eu te cutuco, não cutuca”? Em “A história do Samba”, do compositor ‘quase desconhecido’ Geraldo Figueiredo, escutamos a história verdadeira.

A última faixa do disco é “Passarinho”, letra de Mário Quintana e música de Joyce. Diz assim “Todos que aí estão / Atravancando o meu caminho / Eles passarão / Eu passarinho!!”

É isso, Passarinho urbano foi lançado em 77 aqui no Brasil. O disco que encontrei na casa da madrinha foi uma regravação de 2003. Pra não esquecer, Joyce gravou todas as faixas só, num formato voz e violão e a percussão de Mutinho e Azeitona acompanhando (dois craques que tocavam naquela época com Toquinho).

ps. Esse texto foi publicado originalmente no blog Caserna Cultural (minha primeira experiência na web). Os posts que não ficaram antigos, eu irei republicar aqui, nas páginas do Prosa com Cultura.